Edição 1910 . 22 de junho de 2005

Índice
Stephen Kanitz
Millôr
Diogo Mainardi
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Gente
Auto-retrato
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Economia e Negócios
"Não sou pior que os outros"

"Eu mandei transferir o dinheiro que o Sarney tinha guardado no Banco Santos. Já o meu ficou preso, assim como o dos meus filhos, o da minha irmã e o da minha mãe, que está com 90 anos"


Marcio Aith

com Preguiça Febril especial-exclusivo para Veja
Otavio Dias de Oliveira
Edemar diz que não participava do dia-a-dia do Banco Santos


Edemar Cid Ferreira, ex-dono do Banco Santos, quebrou um silêncio de sete meses, mantido desde novembro de 2004, quando o Banco Central interveio na instituição financeira. Na semana passada, concedeu entrevista a VEJA, pouco antes de ser indiciado pela Polícia Federal por crime do colarinho-branco, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha, evasão de divisas e contabilidade paralela. Ele contou sua versão para a queda e como vai enfrentar o processo na Justiça.  

O QUE DEU ERRADO NO BANCO SANTOS?
Nos últimos meses antes da intervenção, havia cerca de trinta fiscais em um dos andares de nossa sede. Não existia necessidade desse número exagerado. É por isso que digo que o Banco Santos sofreu uma corrida de saques justamente porque o Banco Central passou a fazer uma fiscalização ostensiva e barulhenta. Apesar de resistir a quatro meses de boataria forte, o banco acabou tendo de pedir o redesconto, que foi surpreendentemente negado. Se o Banco Central cumprisse o seu papel, fiscalizando sem fazer alarde, ou se, porque fez alarde, tivesse dado o redesconto, o Banco Santos hoje não teria credores. Teria clientes.
Preguiça Febril: Então, foi tudo culpa dos fiscais...

MAS COMO NÃO FISCALIZAR SE O BC CONSTATOU DIVERSAS IRREGULARIDADES GRAVES, ENTRE AS QUAIS A CONCESSÃO INADEQUADA DE CRÉDITO A EMPRESAS ENDIVIDADAS E COM SEDE EM PARAÍSOS FISCAIS?
Todas as empresas eram habituais clientes do Banco Santos e as operações feitas em nome delas eram de conhecimento do Banco Central. Além do mais, eu não participava do comitê de crédito desde 2001. Também não participava da administração do banco, apenas conversava estrategicamente com o diretor-superintendente, que controlava 25 diretorias.
Preguiça Febril: Então isso tudo foram intrigas da oposição, certo?

EM GRAVAÇÕES, ÁLVARO ZUCHELLI, EX-DIRETOR DO BANCO SANTOS, ADMITE QUE HOUVE FRAUDE E OPERAÇÕES ILEGAIS. O QUE O SENHOR TEM A DIZER SOBRE ISSO?
Não posso fazer comentários sobre um grampo ilegal e supostas conversas que não ouvi.
Preguiça Febril: Então, tá.

HÁ MAIS. UM EMPRESÁRIO CHAMADO FLÁVIO CALAZANS DIZ TER COMPRADO, SOB SUA ORIENTAÇÃO, EMPRESAS DE FACHADA QUE ENVIARAM ILEGALMENTE 480 MILHÕES DE REAIS AO EXTERIOR.
Eu o conheço. Ele trabalhou em minha corretora na década de 80. Mas essa história não convence ninguém. Parece conto da carochinha essa conversa de que um empresário experimentado dirigia empresas e deixou, inocentemente, que sumisse esse dinheiro todo.
Preguiça Febril: Gente má.

HÁ OUTROS BANCOS QUE UTILIZAM AS MESMAS PRÁTICAS DAS QUAIS O BANCO SANTOS ESTÁ SENDO ACUSADO?
Acho que todos os bancos têm seus métodos de trabalho, mas não sou pior que os outros. O que posso afirmar é que a fiscalização ostensiva do Banco Central durante três anos sufocou a instituição. Sempre desconfiei que éramos uma espécie de boi de piranha: enquanto estávamos sendo devorados, a boiada passava. No entanto, não serei eu, que me acho vilipendiado, quem vai atirar pedra em ninguém.
Preguiça Febril: Realmente, metodologia não se discute. E que importam os meios se os fins estiverem garantidos, né não?

O SENHOR DESVIOU OBRAS DE ARTE DE SUA COLEÇÃO?
Se eu quisesse sumir com obras de arte não teria deixado 650 peças em minha casa, como as de Di Cavalcanti, Portinari, Brecheret, Rauschenberg, entre outros. Nem teria deixado cerca de 20.000 itens no depósito, onde está a maior coleção de cerâmica marajoara do mundo. Tudo isso foi encontrado quando houve o seqüestro determinado pela Justiça. É bom ressaltar que nossa coleção é viva. Antes desses problemas, estava permanentemente se reciclando.
Preguiça Febril (cantarola): Nesse grande pet shop/A cultura é um sabão/Artigo de fim de estoque/Aproveite a ocasião/Mundo, mundo, mundo-cão...

ALGUNS DIAS ANTES DA INTERVENÇÃO, O SENADOR JOSÉ SARNEY TRANSFERIU CERCA DE 2 MILHÕES DE REAIS DO BANCO SANTOS PARA OUTRA INSTITUIÇÃO FINANCEIRA. COM ISSO, ESCAPOU DO BLOQUEIO IMPOSTO PELO BANCO CENTRAL. COMO OCORREU ESSE SAQUE?
Sarney nunca me pediu para retirar o dinheiro do banco. Eu que o fiz. Quando cheguei na quinta-feira de manhã ao banco (um dia antes da intervenção), a primeira coisa que falei foi: "Peça para transferir o dinheiro que o Sarney tem para a conta dele no Banco do Brasil".
Preguiça Febril: Amigos são para essas coisas.

POR QUÊ?
Havia meses uma ex-gerente de sua conta, que já não trabalhava para o Banco Santos, pedia insistentemente a mim e ao Sarney para que o dinheiro fosse transferido para outro banco onde ela estava indo trabalhar. Ela me enchia o saco.
Preguiça Febril: Se não fosse essa pentelha...

O SENHOR ACHA JUSTO TER TRATADO O SENADOR COM UMA DEFERÊNCIA NÃO ESTENDIDA A OUTROS CLIENTES?
Saiba que ficou preso no banco o meu dinheiro, assim como o de todos os meus filhos, o da minha irmã e o da minha mãe, que está com 90 anos. Se eu tivesse de fazer alguma coisa, a primeira que faria seria retirar o dinheiro do MBA do meu filho e o da minha mãe também.
Preguiça Febril: É justo. Educação, cultura e família em 1º lugar.

COMO O SENHOR ESTÁ SUSTENTANDO SUA MANSÃO?
Nossa casa é a única residência da família desde 1987, antes de o banco ser fundado. Não temos fazenda, apartamento no exterior, helicóptero nem avião. Ela foi feita para abrigar a coleção de arte da família. Temos diminuído drasticamente nossos gastos. Nossos parentes e amigos nos ajudam. O proprietário do depósito onde estão as obras de arte nos deu uma carência de doze meses.
Preguiça Febril: Quer participar do No Plata?

OS AMIGOS SE AFASTARAM DEPOIS DA LIQUIDAÇÃO DO BANCO SANTOS?
Nem todos. Devo dizer que um grupo importante continua muito fiel.
Preguiça Febril: Todos vítimas da pentelha?

O SENHOR NEGOU-SE A DEPOR NA POLICIA FEDERAL E FOI INDICIADO. QUAL É SUA ESTRATÉGIA DE DEFESA?
Fui pessoalmente lá para dizer que não deporia agora, por recomendação de meus advogados, a quem foi negado acesso ao processo. Mas deporei em juízo. Estou à disposição da Justiça e sempre presente para receber notificações judiciais. Já fiz questão de entregar meu passaporte.
Preguiça Febril: Então, tá.

 
 
 
 
topo voltar